El País Brasil: Algum desinformado ou mal-intencionado dizendo que alimentos orgânicos são ruins para a saúde e o meio ambiente.

Coma transgênicos para salvar o planeta… não, pera…

O portal do El País Brasil vem aumentando o número de visitantes únicos nos últimos tempos, principalmente pela linha editorial mais independente e menos tendenciosa, quando comparado com seus homólogos Folha de São Paulo, G1, por exemplo. Por isso causou estranheza na maioria dos leitores a publicação desta reportagem com a chamada um tanto sensacionalista:

Deixe de comprar comida orgânica se quiser salvar o planeta
Consumir ‘orgânico’ não faz de você amigo do meio ambiente: é uma ameaça para as florestas tropicais
O leitor que for até o final da reportagem, publicada na seção de ciências do jornal, irá verificar uma série de argumentos que pretensamente elucidam o porque devemos parar de consumir orgânicos e voltar para a comida com agrotóxicos e transgênicos. Vamos abordá-los, um a um, buscando demonstrar que a reportagem esforçou-se, por motivos desconhecidos, em construir uma imagem negativa para a produção orgânica e agroecológica:

Orgânicos produzem menos que o convencional, por isso não são capazes de “alimentar o planeta”
Esse é o argumento inaugural do artigo do El País. A comparação entre a produtividade dos sistemas orgânicos e convencionais é um tema recorrente nas pesquisas do campo da agronomia e da alimentação. De modo geral, existe a percepção de que os orgânicos produzem menos. Em valores absolutos, provavelmente os convencionais levem vantagem na maioria dos casos. Mas isso não é necessariamente um ponto positivo, pois as culturas convencionais são intensivas em insumos químicos e sintéticos, como a adubação nitrogenada com uréia e o uso de agrotóxicos para controle de pragas e doenças. A produção é maior quando se usam esses produtos, porém existe um preço amargo: esses insumos são altamente dependente de combustíveis fósseis para sua industrialização, ou seja, consomem uma enorme quantidade de energia além de liberar quantidades equivalentes de CO2 na atmosfera. Então, se colocarmos na equação o custo energético desses insumos, o impacto ambiental de uma tonelada de milho orgânico, por exemplo, será muito inferior ao impacto causado por essa mesma tonelada produzida no sistema convencional típico.

O texto defende que precisaríamos de mais terra para produzir alimentos orgânicos para alimentar o mundo. Para embasar essa afirmação é utilizada uma meta-análise da publicada na revista Nature. A meta-análise, descrita pelo El País como “uma avançada pesquisa estatística”, na verdade é uma pesquisa feita à distância, com base em dados de outros pesquisadores: selecionam-se um determinado número de artigos científicos publicados e analisam-se seus dados, buscando tendências e respostas. Ou seja, é um resultado que depende de dados de terceiros e a seleção e a análise estatística contam muito para a resposta final da meta-análise. O autor da meta-análise pode escolher os artigos que quiser, inclusive foi o que fizeram os autores da National Research Council (NRC) que nesse ano divulgou que transgênicos eram perfeitamente seguros para consumo humano. O NRC, composto por pesquisadores financiados por organizações e empresas ligadas aos transgênicos, selecionou os artigos que bem entenderam, para obter respostas que interessavam a eles.

Porém, vamos considerar que a meta análise foi feita da melhor maneira possível e que os orgânicos realmente produzam algo entre 5 e 35% menos que os convencionais. Isso não é de forma alguma um problema. Hoje, somente no Brasil, diariamente 41 toneladas de alimentos vão para o lixo ao invés de serem consumidas. É de conhecimento até do mundo mineral que a humanidade produz muito mais do que precisa para se alimentar bem, o problema está principalmente no desperdício e nas dietas altamente desequilibradas das sociedades ocidentais. Ao invés de querer que o planeta inteiro se alimente como um norte-americano, deveríamos pensar sistemas alimentares que busquem além da produção, a saúde. Isso implica produzir e consumir menos carne bovina por exemplo. Menos alimentos altamente processados. Menos glicose concentrada. Tudo isso está dentro da filosofia da agricultura orgânica, consumir melhor, alimentos locais frescos. Não é possível imaginar um mundo aonde a agricultura orgânica substitua a agricultura industrial se quisermos continuar sustentando padrões alimentares insustentáveis. A meta não deve ser incluir a população global no supply-chain do fast-food industrializado e sim alcançar um paradigma aonde grande parte da nossa alimentação se encontre em um raio de 200 km de distância de nossas casas.

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